Sozinho é uma coisa,solitário é outra.Sozinho é com,solitário é sem.Não confio no amor de quem não consegue ficar sozinho.Nunca foi ao cinema sozinho, nunca viajou sozinho,perambula pela rua
feito um cão que se perdeu do dono.Sentar na lanchonete de uma livraria
para tomar um cafezinho assemelha-se a uma catástrofe.Sua solidão lhe
parece vergonhosa e indigesta,é evitada com o mesmo afinco com que
evitaria a morte.
Para ele,qualquer parceria é melhor que
nenhuma.Uma conversa enfadonha é melhor que o silêncio.Um chato é
melhor que ninguém.É praticamente um viciado em companhia.E,como todo
viciado,critério não é o seu forte.
Não confio no amor de quem não se suporta.De quem telefona a fim de papo furado,de quem envia mensagens só para
ouvir o sinal da chegada da resposta,de quem precisa se iludir de que
não está só.Quem de nós não está só?Uma manhã de frente para o
mar,uma tarde com um livro, uma noite com um filme,três dias inteiros
numa cidade estranha, uma rua que nunca foi atravessada, um museu com
tempo livre à vontade,uma cama vazia – para ele, simulacros do inferno.
Não confio no amor de quem não se entretém.De quem se
desespera em frente ao espelho,de quem não consegue se maravilhar num
jardim,de quem não viaja ao ouvir uma música,de quem não gosta de
andar de ônibus enquanto aprecia a paisagem pela janela,de quem não se
sente inteiro num trem.Sozinho é uma coisa, solitário é outra. Sozinho é com,solitário é sem.
Eu sozinha sou muitas. Sozinha,tem mais sabor minha comida,tem mais
foco o meu olhar,tem mais profundezas o meu ser.Sozinha tem mais
espaço minha liberdade,tem mais imaginação a minha fantasia, tem mais
beleza a minha individualidade.Sozinha tem mais força o meu pensamento,mais inteireza a minha vontade.Não confio no amor de quem negocia sua
autenticidade.
Como amar de verdade outro alguém,se não sabe de
onde esse amor vem?Onde foi gerado,por que é necessário,que
atributos ele contém?Amar é doar,não vem do doer.Amar é saber que
aquele que a gente ama,se faltar, vai deixar saudade,mas não nos
transformará num cadáver a vagar.Não confio em quem ama para ser um
par,não confio em quem quer apenas se enquadrar,não confio em quem ama
por não se tolerar.
Amar tem que ser extraordinário.Além do que já se tem.Se sozinho você não se tem, amar vira tubo de oxigênio,ânsia,invenção
e enredo barato,perde a dignidade,o amor vira muleta e trucagem.Confio no amor de quem não precisa amar por sobrevivência,de quem se
basta e mesmo assim é impelido a se dar, porque dar-se é excelência,não
é mendicância.
Não confio no amor de quem não se ama em primeira instância.
Martha Medeiros
Fraternos Abraços